ℓσяιs' cσяηεя •ᴗ•

à minha terra, meu saudosismo

ou, I don't want to be here, I wanna to go back to bahia.

mudar de seu país é uma experiência um tanto quanto intrigante e eu, afortunada como sou, já pude vivê-la duas vezes. a primeira foi rápida, quase um bate-volta, três meses em terras italianas. e a segunda é a realidade em que ainda vivo, na inglaterra há quase seis anos. e enquanto assim for, este texto estará em eterna construção.

dizem por aí que imigrantes só apreciam o brasil após se mudarem e te garanto que não. mesmo que antes eu não amasse o sol escaldante o ano todo, eu amava a alegria, a energia, o povo, a cultura e o idioma. não há língua mais poética que a brasileira; esqueça o francês e seu je-ne-sais-quoi, ali não tem tupi, não tem guarani, não tem gingado e nem o peso da nossa ancestralidade.

o brasil não é um impávido colosso apenas no povo. um povo sofrido e maltratado pela história, pela colonização, pela política. é também gigante em natureza, em resiliência, em viver - e não apenas sobreviver.

e dói, como dói, deixar tudo isso pra trás.

lá em casa, dia de feira era na terça, e a expectativa era sempre a mesma: frutas deliciosas pra todo lado, salada fresca e um pastel quentinho pra deixar a barriga feliz (nem toda semana, de vez em quando). e ninguém sabe a falta que um pastel de feira faz até você não ter um quentinho em mãos. apesar de que preciso ser honesta, o caldo de cana não era muito a minha praia. o que é engraçado, porque eu cresci mastigando cana na chácara da minha avó.

e no brasil também, é onde todas essas memórias, e pessoas que tornam essas memórias afetivas, estão. ali é onde eu tive uma galinha de estimação no quintal da minha avó. é onde, por muitos anos, tivemos quatro cachorros ao mesmo tempo no quintal de casa. é onde eu conheci muitas pessoas especiais até hoje. é onde eu aprendi inglês o suficiente pra me virar na minha realidade atual. é onde eu tenho história, nome e CPF - não um national insurance number, tea with milk blá-blá-blá.

and don't get me wrong, eu gosto - e muito - da minha vida gringa (e de chá com leite). eu tenho família não consanguínea e eu tenho família que veio de parentesco, ao meu lado aqui. eu tenho um bom emprego na área em que me formei e construí muita coisa boa, sozinha e com meu marido, também mineiro.

mas a verdade é que pra quem é imigrante, seu coração está sempre partido ao meio. e agora já não tem mais volta. se eu continuar aqui, vou sempre sonhar com um recanto tropical. se eu voltar pra minha terra, vou sempre sonhar com as chuvas inglesas. eu sempre estarei neste intermédio doído, sem bálsamo que alivie completamente.

e eu sei que você está pensando, "que problemão, hein, garota." e sim, eu sei que é um problema muito bonito de se ter. e não é uma reclamação, de forma alguma. sempre fui e serei muito grata por tudo o que a vida me dá e me permite.

mas é que às vezes bate uma vontade de largar tudo (de novo) e voltar pro brasil, e o peito aperta. às vezes bate a vontade de nunca mais pisar em minas, e o peito também aperta. e eu acho que o problema aqui é a saudade, mas saudade só existe em português. então, pra ser honesta, nem eu sei muito bem o que fazer.